Resumen de la Ponencia:
No Brasil e em toda América Latina, ainda que inseridas nas margens do pensamento, intelectuais negras têm protagonizado tanto a construção de teorias, ideias, conceitos, quanto orientado uma série de agendas políticas que se encaminham para consolidação de práticas anticoloniais, anticapitalistas e antissexistas. A intelectual brasileira e ativista negra Lélia Gonzalez (1935-1994) interessada e diretamente ligada às mudanças que emergem nesse período, em seu pensamento, escrito a partir dos anos finais da década de 1970, em especial nos textos (1979:1988) ao tratar das questões de classe e raça, as produções sobre as relações raciais no Brasil, Gonzalez (1979) destaca na sociologia acadêmica três tendências que diferenciam para se referir a integração do sujeito negro na sociedade de classes. A perspectiva de Lélia Gonzalez se diferencia a medida em que seu interesse foi o de compreender “de que maneira o gênero e a etnicidade são manipulados de tal modo que, no caso brasileiro, os mais baixos níveis de participação na força de trabalho, “coincidentemente”, pertencem exatamente às mulheres e à população negra” (GONZALEZ, 1979). Nesse sentido, há que se considerar que a intelectual nos apresenta singulares elementos que auxiliam na reflexão sobre as relações de opressões estruturais que moldaram e seguem marcando uma sociedade contemporânea profundamente, capitalista, racista e sexista. Mediante a isto, nesta apresentação de trabalho, nos propomos a refletir, a partir de seus ensaios (1979:1988), sobre a importância, especialmente, das categorias de raça e classe no pensamento político e social de Lélia Gonzalez, a fim de identificar a possibilidade, apontada pela intelectual, de compreender como a desigualdade de classe, raça e gênero estão profundamente conectadas com a formação e realidade social do Brasil, como também das sociedades da Améfrica Ladina. Palavras-chave: Pensamento de Lélia Gonzalez; Classe; Gênero e Raça.
Introducción:
Lélia de Almeida Gonzalez nasceu em 1935 em Belo Horizonte no Brasil, filha de um homem negro ferroviário e mãe indígena empregada doméstica, foi a penúltima filha de uma família de baixa renda com 18 filhos. No ano de 1942, ainda na infância de Lélia Gonzalez,mudaram-se para o Rio de Janeiro, cidade em que faz seus estudos nos anos iniciais, na adolescência e vida adulta. Lélia Gonzalez graduou-se em História e Geografia em 1958 e em Filosofia em 1962, na antiga Universidade do Estado da Guanabara (UEG), atual Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Estudou, por interesse pessoal, psicanálise e realizou seus estudos de pósgraduação em Antropologia. No que tange a sua carreira, Gonzalez lecionou primeiramente em e graduação, iniciou o trabalho como professora universitária em instituições públicas e privadas como a Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e a Pontifícia UniversidadeCatólica (PUC-Rio) (RATTS e RIOS, 2010).
Falecendo no ano de 1994 Lélia Gonzalez foi professora, antropóloga, filósofa, tradutora, feminista negra, fundadora do Movimento Negro Unificado (MNU), militante do Movimento Negro Brasileiro, e se tornou uma referência para militância presente nos movimentos negros, coletivos e organizações das gerações do século XXI, como também uma importante intelectual negra do século XX.
O pioneirismo de Lélia Gonzalez para percepções sobre a situação de exclusão, discriminação racial, de classe e de gênero a que estava submetida a população negra, sobretudo mulheres negras, na diáspora africana, tanto no contexto brasileiro quanto no cenário latino-americano demarca seu empenho intelectual para construção de um projeto político intelectual cujo perspectiva democrática, de pluralidade, se constitui como anticolonial, antipatriarcal e anticapitalista.
Diante disso, nesse artigo teceremos algumas reflexões a partir do pensamento mobilizado pela intelectual (1979: 1988) que antecipadamente já na década dos anos finais de 1970 e 1980, nos apresenta contribuições para o pensamento social e que ultrapassam o cenário nacional, inserindo assim seu pensamento no campo intelectual transnacional, com profícua interlocução com pensadores/as do mundo afrodiaspórico que buscavam compreender, questionar e explicitar as relações raciais pós-colonialismo.
Desarrollo:
PENSAMENTO POLÍTICO E SOCIAL BRASILEIRO E LÉLIA GONZALEZ
A complexidade da sociedade brasileira tem sido tema de investigação científica no campo das Ciências Sociais desde o surgimento e consolidação deste campo do saber no país. A Sociologia, por exemplo, tem contribuído de maneira bastante assídua debruçando-se edesenvolvendo teorias que auxiliam exercícios de interpretação desta realidade social. Dentro disso, o campo de estudos conhecido como pensamento social brasileiro sempre ocupou um lugar de destaque na produção acadêmica das ciências sociais no Brasil. Tratandosede um método que se propõe a refletir sobre o pensamento (OLIVEIRA, 1999).
Nesse vasto campo, entrecruzam-se formas de pensar, modelos de interpretação da realidade social e política brasileira, matrizes de pensamento no interior de um repertório sintético-analítico (BOTELHO & SCHWARCZ, 2011).Sobre o pensamento social brasileiro como campo intelectual contemporâneo, Maia (2010) explicita “entendo o pensamento social brasileiro não como o conjunto de textos e intelectuais clássicos associados a uma tradição pretérita, mas como o campo contemporâneo de estudos sobre esta tradição” (MAIA, 2010, p.66).
Os intelectuais inseridos nesse campo se constituiriam como aqueles “autores que nos ajudam a compreender e explicar o funcionamento das instituições, relações sociopolítico econômicas, enfim o funcionamento da sociedade e do Estado brasileiro” (MARTINS, 2017, p. 325). Em “Linhagens do Pensamento Político Brasileiro” (2005), Gildo Brandão destaca que nos últimos anos o conjunto de pesquisadores vem não apenas revisitando o ensaísmo construído nos anos de 1930, mas vasculhando a história intelectual do país e “(...) produzindo uma quantidade respeitável de análises, pesquisas empíricas e historiográficas, interpretações teóricas que têm contribuído para renovar nossoconhecimento dos padrões e dilemas fundamentais da sociedade e da política brasileiras” (BRANDÃO, 2005, p.231). Iniciado em meados do século XX e tendo ganhado impulso nos anos de 1970, este campo chegou à maturidade nos anos de 1990, “constituindo-se em um dos mais produtivos das ciências sociais” (BRANDÃO, 2005, p. 231). De acordo com Brandão o estudo do “pensamento político-social” estabeleceu-se aqui, como em todo o mundo, no cruzamento de disciplinas tão variadas como a antropologia política e a sociologia da arte; a história da literatura e a história da ciência; a história das mentalidades e a sociologia dos intelectuais; a filosofia e teoria política e social; e a história das idéias e das visões-de-mundo (BRANDÃO, 2005, p.232). Esse campo de estudos já se destacava desde o século XX, ao nosso ver, ao dedicar-se a analisar as contradições reais e, ao mesmo tempo, de propor um modo novo de enfrentá-las a fim de superá-la. Neste período e contexto como aponta Brandão (2005)
Tudo se passa como se o esforço de “pensar o pensamento” se acendesse nos momentos em que nossa má formação fica mais clara e a nação e sua intelectualidade se vêem constrangidas a refazer espiritualmente o caminho percorrido antes de embarcar em uma nova aventura - para declinar ou submergir em seguida (BRANDÃO, 2005, p. 235).
O interesse sobre o pensamento político e social visa não somente enfrentar o presente, mas para além disso, “pensar o pensamento” envolve o desafio político onde o/a intelectual analista se posiciona diante de novas questões e das mudanças que estão em curso. GildoBrandão, citando Caio Prado Júnior (1957) enfatiza que:
o século XIX “[...] marca uma etapa decisiva em nossa evolução e inicia em todos osterrenos, social, político e econômico, uma nova fase. [...] constituiu em uma chavepreciosa e insubstituível para se acompanhar e interpretar o processo históricoposterior e a resultante dele que é o Brasil de hoje (Prado Junior, 1957, p. 05).
Ainda de acordo com Brandão (2005), os intelectuais encontram nas ciências sociais o instrumento adequado para pensar sobre si próprios:Tais matrizes intelectuais são, portanto, produtos, resultados de processos para os quais concorreram múltiplos fatores; embora conhecidas, só puderam ser reconhecidas quando o tecido social adquiriu certa densidade, a sociedade internalizou seu “centro de decisão” (BRANDÃO, 2005, p. 252). Assim, o campo do Pensamento Social brasileiro propõe “dentro das ciências sociaisbrasileiras, não apenas uma tarefa possível, mas relevante e necessária para reflexão sobre ascontinuidade e mudanças das nossas concepções, da formação social e identitária, da cultura edas instituições políticas” (SIMÕES, 2015, p.04).Compreendemos Lélia Gonzalez como uma figura intelectual que faz exatamente essemovimento, como uma intelectual cujo pensamento se constrói sobre o Brasil, suas mudançasem cursos, é elaborado a partir do Brasil e direcionado também para a América Latina e mundoafro-diaspórico ultrapassando as barreiras nacionais, com reflexão original sobre a complexaarticulação entre raça, gênero e classe nas relações sociais nesses territórios.Nesse sentido, compreendendo as bases fundantes, isto é, o colonialismo, o racismo eo patriarcado que articularam a formação econômica e social brasileira e explicitam umapermanente estratégia de manutenção de desigualdades que atravessa toda a realidade social,Lélia Gonzalez chama, pioneiramente, a atenção para as relações entre raça, gênero e classe noBrasil e na América LatinaSão nas suas obras produzidas no final dos anos 1970 em que se manifesta o interesseda intelectual em compreender o capitalismo brasileiro, analisando-o sob prisma racial e aintegração do negro na sociedade de classes, como coloca Raquel Barreto (2018), que entendeque a Gonzalez “[...] estava mais interessada em analisar e compreender a formação docapitalismo brasileiro com recorte racial” (BARRETO, 2018, p. 16).Era um imperativo para Lélia Gonzalez e para outros/as intelectuais negros/as de suageração criar um pensamento próprio do negro brasileiro, procurando demonstrar que as teoriasdas Ciências Sociais até então formuladas não eram capazes de explicar a experiência negrabrasileira na sua completude e, por isso, desenvolveu categorias/conceitos próprios de análise(RAMOS, 1955).Como explica a própria Lélia Gonzalez,[...] diferentes posicionamentos teóricos vêm buscando explicar a situação dapopulação de cor (negros e mulatos) em nosso país, na medida em que tal situação setraduz numa participação mínima nos processos políticos, econômicos e cultura.Apesar da seriedade dos teóricos brasileiros perceber-se que muitos deles nãoconseguem escapar às astúcias da razão ocidental (GONZALEZ, 1979:2020, p. 31)Para a intelectual, pode-se constatar nos discursos desses pensadores “[...] os efeitos doneocolonialismo cultural; desde a transposição mecânica de interpretações de realidadesdiferentes às mais sofisticadas articulações “conceituais” que se perdem no abstracionismo”(GONZALEZ, 2020, p.31).Já sua perspectiva diferencia-se dessas três tendências, mas, segundo ela, leva emconsideração as duas últimas em sua formulação, pois “[...] não podemos deixar de levar emconsideração as duas últimas, uma vez que devidamente dialetizadas, nos permite uma análisemais objetiva das relações raciais no Brasil” (GONZALEZ, 2020, p.33). Sua análise docapitalismo brasileiro dialoga diretamente com os fervilhantes debates, à época, sobredependência e desenvolvimento.Assim, ao tratar sobre a integração do negro na sociedade de classes, a perspectiva deLélia Gonzalez se diferencia do pensamento social construído anteriormente na medida quepara além das questões de raça e classe propriamente ditas, procurou compreender “[...] de quemaneira o gênero e a etnicidade são manipulados de tal modo que, no caso brasileiro, os maisbaixos níveis de participação na força de trabalho, “coincidentemente”, pertencem exatamenteàs mulheres e à população negra” (GONZALEZ, 2020, p.27).Lélia Gonzalez aponta que houve na América Latina e no Brasil, um desenvolvimentodesigual e combinado que incide historicamente na população negra. Suas análises para asegunda metade do século XX se basearam nos dados dos Censos do IBGE dos anos de 1950e 1960, que possibilitaram observar as condições socioeconômicas da população negra noBrasil.Seu texto “Cultura, etnicidade e trabalho: Efeitos linguísticos e políticos da exploraçãoda mulher” (1979a) é incisivo ao analisar as opressões estruturais para o entendimento dadinâmica social e o funcionamento do modo de produção capitalista na formaçãosocioeconômica do Brasil, dialogando diretamente com os debates da época sobre dependênciae desenvolvimento, presentes em obras como na de Florestan Fernandes.Na jornada para interpretar o desenvolvimento do capitalismo brasileiro, inserido nocontexto da América-Latina, pela perspectiva racial e de gênero, Gonzalez (1979) orienta suasreflexões a partir das teses do intelectual argentino José Nun (1968; 1978), especialmente osconceitos de “superpopulação relativa”, “exército industrial de reserva”, e sobretudo sua tesede “massa marginal”, que a intelectual usa para observar o capitalismo, suas contradições emtermos de América Latina e para inserir a população negra nesse contexto, em especial noBrasil.ULTRAPASSANDO AS BARREIRAS NACIONAIS: LÉLIA GONZALEZ NADIÁSPORA AFROLATINOAMERICANAA partir dos textos de Lélia Gonzalez (1979-1988) é possível observarmos que mesmoabolida a escravatura (1888) permanece uma organização racial da sociedade que determina oslugares socialmente ocupados por negros, sejam homens ou mulheres.Poderíamos pautar o pensamento da intelectual em dois diferentes momentos. Em umprimeiro momento, em que Lélia Gonzalez se propõe a pensar a criação da identidade brasileirae como a articulação de raça/classe/sexualidade/gênero/poder operam dentro da mesma, comose dão os seus significantes culturais, como se estabelece o mito da democracia racial e comoessas articulações se formam dentro do Estado brasileiro.Em um segundo momento, em que a intelectual Lélia Gonzalez se debruça a pensarpara além das fronteiras nacionais do Estado brasileiro, passando assim a perceber como asarticulações das opressões afetam todo o continente amefricano e o chamado Atlântico Negro.Nesse momento consideramos que seus escritos podem ser compreendidos em cenáriotransnacional, uma vez que a pensadora analisa aspectos culturais e identitários observados apartir do que identifica como Améfrica Ladina.Seus textos desse segundo momento, se localizam no cenário do ano de 1988, um anoimportante para o Brasil, um marco para a sociedade brasileira, em que se comemorava ocentenário da abolição da escravatura e demarcava o avanço histórico na consolidação daconstituição de 1988.Como coloca inicialmente Lélia Gonzalez (1988b)Neste ano de 1988, o Brasil, o país com a maior população negra das Américas,comemora o centenário da lei que estabeleceu o fim da escravidão no país. Ascelebrações estão espalhadas por todo o território nacional, promovidas por inúmerasinstituições, públicas e privadas, que celebram os “cem anos de abolição” (2020[1988b] p.139)Destaca assim, Gonzalez que[...] Nosso compromisso, portanto, é no sentido de que, ao refletir sobre a situação dosegmento negro como parte constitutiva da sociedade brasileira (ocupando todos osespaços possíveis para que isso ocorra), ela possa olhar para si e reconhecer, em suascontradições internas, as profundas desigualdades raciais que a caracterizam. Nessesentido, as outras sociedades que também compõem essa região, esse continentechamado América Latina, dificilmente diferem da sociedade brasileira. (2020[1988b] p.139).Seu ensaio “Por um feminismo afro-latino-americano” (1988b), se apresenta como umaproposta de reflexão sofisticada sobre o Brasil e a América Latina. Já imbuída da perspectivapresente na categoria político-cultural de amefricanidade a intelectual considera ascontradições internas do feminismo presente nos anos de 1980.Dentro dessa perspectiva de compreender as profundas desigualdades que noscaracterizam e nos compõe enquanto Brasil como país inserido na América Latina, a intelectualnos convoca - pela primeira vez se colocando como feminista - a refletir sobre “as contradiçõesinternas do feminismo latino-americano” e dando ênfase na dimensão racial, se atentando aofato de que dentro do movimento de mulheres, seriam as negras e indígenas o testemunho vivoda exclusão de raça e gênero. Como destacado “o racismo se volta justamente contra aquelesque, do ponto de vista étnico, são os testemunhos vivos da mesma, tentando tirá-los de cena,apagá-los do mapa” (GONZALEZ, 2020[1988c], p.151).Ampliando o seu olhar para horizontes além do território nacional, no pensamentotecido no ano de 1988, Lélia Gonzalez partindo de reflexões que vinham sendo estruturadasem outros ensaios (GONZALEZ, 1983; 1988a,c) e que seguiam na direção de compreender assingularidades como também as similaridades da formação sócio histórico-cultural dos paísesda América Latina e das experiências de mulheres africanas e indígenas em diáspora, nosapresenta a concepção de amefricanidade.As dinâmicas das relações raciais nos países da América Latina ganharão leitura porLélia Gonzalez. Para a intelectual “verifica-se que o racismo desempenhará um papelfundamental na internalização da “superioridade” do colonizador pelos colonizados. E eleapresenta, pelo menos, duas faces que só se diferenciam enquanto táticas que visam ao mesmoobjetivo: exploração/opressão” (GONZALEZ, 2020 [1988a], p. 130).Os país que sofreram com a colonização e terão suas realidades sociais constituídas apartir deste fato na concepção de Lélia Gonzalez lidaria com diferentes maneiras do racismo.Para a intelectual o racismo se apresentava como um racismo aberto e um racismo disfarçado.Neste primeiro, racismo aberto, segundo Lélia Gonzalez poderíamos compreendercomo característico da colonização anglo-saxônica, germânica, ou holandesa em que oestabelecimento de uma racionalidade racista se dá baseada na supremacia racial branca,formalizada na institucionalização de uma segregação racial explícita, a miscigenação nãoacontece, “na medida em que o grupo branco pretende manter sua “pureza” e reafirmar sua“superioridade”, tendo como maiores exemplos, como nos cita Gonzalez, a África do Sul comApartheid, e os Estados Unidos com leis segregacionistas, sendo estes, segundo a mesma,modelo materializados desse tipo de teoria racista (GONZALEZ, 2020 [1988a], p. 130).Já no caso das sociedades de origem latina, o formato adotado seria o racismo pordenegação, racismo disfarçado, mais característico da colonização de países ibérico, ondeprevalece uma racionalidade racista da democracia racial, muito mais eficaz de alienação dossujeitos negros, do que o racismo aberto. Nesse caso segundo Lélia[...] temos o racismo disfarçado ou, como eu o classifico, o racismo por denegação.Aqui, prevalecem as “teorias” da miscigenação, da assimilação e da “democraciaracial”. A chamada América Latina, que, na verdade, é muito mais ameríndia eamefricana do que outra coisa, apresenta-se como o melhor exemplo de racismo pordenegação (GONZALEZ, 2020 [1988a], p.130).De acordo com Lélia GonzalezO racismo latino-americano é suficientemente sofisticado para manter negros e índiosna condição de segmentos subordinado no interior das classes mais exploradas,graças à sua forma ideológica mais eficaz: a ideologia do branqueamento. Veiculadapelos meios de comunicação em massa e pelos aparelhos ideológicos tradicionais, elareproduz e perpetua a crença de que as classificações e o valores do Ocidente brancossão os únicos verdadeiros e universais (GONZALEZ, 2020 [1988a], p. 131).Isto quer dizer que a ideologia do embranquecimento, sustentada pela superioridadebranca, produziu uma das formas mais eficazes do racismo nos países da diásporaafrolatinoamericana, pois, em virtude do desejo do embranquecimento se dá a negação daprópria raça, da própria cultura e isto leva à fragmentação da identidade racial ou até mesmonão propicia o processo de construção da mesma.DIÁSPORA AFROLATINOAMERICANA E AMEFRICANIDADEO século XX foi marcado por significativos movimentos e ideologias elaboradas porintelectuais negros afro-diaspóricos que buscaram, tanto compreender a experiência vivida porsujeitos negros, quanto pensar as reconfigurações do que é ser negro/a em diáspora nasAméricas.Estes movimentos de mobilização social e política, certamente, pautou rumosfundamentais para a constituição de diálogos entre África e os espaços diaspóricos Afro-latinoamericanos,em torno da interação política, cultural e intelectual (DURÃO, 2020).Sob essa perspectiva, é possível pensarmos que os encontros de pensadores/as afrodiaspóricosfora de seus espaços geográficos e territórios nacionais possibilitou leituras sobreas similitudes, complexidades, como também particularidades, e a troca sobre as diferenças doscontextos sociais, políticos e históricos sobre a questão racial na diáspora afrolatinoamericana,confere uma configuração transnacional, que possibilitou diálogos dos movimentos negros naAmérica Latina (REIS, 2011).Luiza Bairros (1999) nos relata que Lélia Gonzalez talvez tenha sido a militante negraque mais participou de seminários e congressos fora do Brasil, nas décadas de 1970 e 1980,conhecendo outros modos de pensar a diáspora (BAIRROS, 1999).Nesse contexto, entre os diálogos e travessias entendemos que se redesenham osdiscursos, apontando para a existência de um pensamento transnacional, que se dá a partir dadiáspora afrolatinoamericana. Ao nos depararmos com esses escritos elaborados por LéliaGonzalez em 1988, é demarcado que a intelectual negra está inserida dentro de um contexto dediálogos transnacionais, em que as viagens tanto de caráter ativista quanto de caráter acadêmicoforam de extrema importância para a construção do seu pensamento.Dentro disso, é preciso observarmos que a produção intelectual de Lélia se desenvolveem um contexto em que teorias e perspectivas metodológicas de leitura sobre a realidadeafricana e o mundo afrodiaspórico já vinham e seguiam ganhando difusão, em um processoque buscava reconfigurar o lugar dos sujeitos negros, os retirando das margens os trazendo parao centro como protagonistas de um projeto de emancipação.Das muitas mobilizações no mundo afrodiaspórico, o Movimento da Négritude, entreas décadas dos anos de 1930 e 1940, se expande e fomenta uma geração fundamental deintelectuais, a destacar a figura do senegalês Léopold Sédar Senghor, do martinicano AiméCésaire e Léon-Gontran Damas, que estarão nas bases das leituras anticoloniais da segundametade do século XX (DURÃO, 2020).De acordo com Durão (2020), “A Négritude deve ser percebida como um “projetocoletivo” de transformações literárias e ideológicas (...) representaram um desejo de mudançacomo uma obrigação de fazer algo diferente no retorno aos seus territórios ainda colonizados”(2020, p.73, 74).Podemos assim dizer que, o movimento da Négritude se estabelece sob a dinâmica deum movimento de ideias e de práticas sociais contra-hegemônicas que propiciou aressignificação positiva das relações étnico-raciais, como também outra forma de narrar sobreo “outro” sujeito colonizado, se caracterizando pela busca da valorização da cultura africana,perpassando a dimensão da identidade, e de suas civilizações.Nesse contexto do século XX que mesmo aponta a intelectual “desnecessário dizer quea categoria de amefricanidade está intimamente relacionada àquelas de pan-aficanismo,négritude, afrocentricity etc” (GONZALEZ, 2020 [1988a], p. 135).Com a categoria político-cultural de Amefricanidade, Lélia Gonzalez mostra que apresença efetiva de mulheres e homens negros nos diferentes países das Américas e Caribe foiconstante, entretanto, ocultada e silenciada pela negação da existência desses, como ser, comosujeitos, e ao nos mostrar também nos convoca, por meio do pensamento de Molefi Asante queaponta que “uma ideologia da libertação deve encontrar sua experiência em nós mesmos; elanão pode ser externa a nós e imposta por outros que não nós próprios; deve ser derivada denossa experiência histórica e cultural particular” (ASANTE apud GONZALEZ, 2020 [1988a],p.137).Lélia Gonzalez (1988abc), na esteira dos intelectuais que seguiam as perspectivas doprojeto político Pan-africanista, por meio de diálogos, influenciou-se, como ela coloca, pelasleituras de W.E.B. Dubois, Frantz Fanon, Walter Rodney, Cheik Anta Diop, Ivan Van Sertima,Marcus Garvey, Amílcar Cabral, Theophile Obenga e Molefi Kete Asante.Destacando Asante (2009, p.93) com o paradigma da afrocentricidade como “um tipoparadigma uma prática, uma perspectiva que percebe os sujeitos e agentes de fenômenos,atuando sobre a própria imagem cultural e de acordo com seus próprios interesses”, propondoassim, uma outra maneira de analisar o mundo, a dinâmica das relações sociais tendo asperspectivas dos sujeitos negros, do continente africano e da diáspora africana no centro e nãomais na margem.Sob conformidade com este paradigma, a categoria político-cultural de amefricanidade,Gonzalez coloca-nos que “para além de seu caráter geográfico, a categoria de Amefricanidadeincorpora todo um processo histórico de intensa dinâmica cultural (adaptação, resistência,reinterpretação e criação de novas formas) que é afrocentrada [...]” (GONZALEZ, 2020[1988a], p.137).Nesse sentido, a categoria político-cultural de Amefricanidade cunhada por LéliaGonzalez, nos aponta elementos transnacionais que percorrem toda a Améfrica Ladina, e quesob uma perspectiva afrocentrada da realidade brasileira e da diáspora africana nas Américas,nos convoca para um deslocamento que nos faz refletir sobre as categorias de localização,centralidade e agenciamento negro, presentes no paradigma de Afrocentricidade sistematizadopor Molefi Asante (1980), como também em como a categoria de Amefricanidade nos apontao olhar para a construção de um agenciamento negro feminino, uma vez que o pensamento deLélia Gonzalez pioneiro ao tratar de categorias não antes pensadas e compreendidas comocategorias de análise articuladas, como a raça, gênero na realidade social brasileira na décadados anos de 1980.De acordo com Gonzalez[...] Portanto, a Améfrica, enquanto sistema etnogeográfico de referência, é umacriação nossa e de nossos antepassados no continente em que vivemos, inspirados emmodelos africanos. [...] Ontem como hoje, amefricanos oriundos dos mais diferentespaíses têm desempenhado um papel crucial na elaboração dessa Amefricanidade queidentifica, na Diáspora, uma experiência histórica comum que exige ser devidamenteconhecida e cuidadosamente pesquisada. (GONZALEZ, 2020, [1988a], p. 135).Amefricanidade torna-se, então, uma abertura para conhecer melhor, bem como paracuidadosamente pesquisar nossas experiências históricas comuns.Assim, para Lélia Gonzalez a AmefricanidadeResgata uma unidade específica, historicamente forjada no interior de diferentessociedades que se formam numa determinada parte do mundo. Portanto, a Améfrica,enquanto sistema etno-geográfico de referência, é uma criação nossa e de nossosantepassados no continente em que vivemos, inspirados em modelos africanos. Porconseguinte, o termo amefricanas/amefricanos designa toda uma descendência: nãosó a dos africanos trazidos pelo tráfico negreiro, como a daqueles que chegaram àAmérica muito antes de Colombo (GONZALEZ, 2020, [1988a], p.153).Nesse sentido, a contribuição e avanço que a categoria de amefricanidade nos aponta,coadunando com Cláudia Pons “é a de uma categoria com dinâmica histórica própria fornecidapelos diferentes contextos históricos que a constituem. A categoria, portanto, tem forçaepistêmica, pois pretende outra forma de pensar, de produzir conhecimento, a partir dossubalternos, dos excluídos, dos marginalizados” (CARDOSO, 2014, p. 972).Desta feita, a Amefricanidade, categoria cunhada por Lélia Gonzalez nos anos de 1980,que se insere na perspectiva pós-colonial, surge no contexto traçado tanto pela diáspora negraquanto pelo extermínio da população indígena das Américas e recupera as histórias deresistência e luta dos povos colonizados contra as violências geradas pela colonialidade dopoder.Como bem destaca Lélia Gonzalez “reconhecê-la é, em última instância, reconhecerum gigantesco trabalho da dinâmica cultural que não nos leva para o outro lado do Atlântico,mas que nos traz de lá e nos transforma no que somos hoje: americanos (GONZALEZ, 2020[1988a], p.138).
Conclusiones:
“[...] o fato é que Nanny, espécie de Oiá/Iansã,constituiu-se num dos grandes pilares dessa amefricanidadeque nos alerta e sustenta nossas lutas atuais,amefricanas de todas as regiões. Axé, mulher!”(GONZALEZ,1988).
Indispensável enfatizar que Lélia Gonzalez na segunda metade do século XX, se difere de outros intérpretes do país à medida que pensa de forma relacional os marcadores sociais da diferença classe, raça e gênero, em um momento que essas categorias eram pensadasanaliticamente de forma distinta.
Em seus textos do ano de 1979 e 1988 Lélia Gonzalez ao transgredir nos auxilia de maneira singular a deslocar mulheres e homens negras/os e indígenas da margem para o centro da investigação e a partir da cultura, do conhecimento resgate suas próprias experiências parao enfrentamento do racismo e do sexismo. Com sua abordagem que propõe uma análise da sociedade brasileira e das sociedades nas américas pensando-as a partir da relação e proximidade com o restante da América e com a África Em específico, com os ensaios que tratam da categoria de Amefricanidade a intelectual nos aponta para uma singularidade da compreensão sobre como o racismo se dá na dinâmica das relações sociais nos diferentes territórios da realidade africana, do mundo afro-diaspórico, especificamente, da diáspora afrolatinoamericana. Isto ao nosso ver, avança em termos de reflexão uma vez que mesmo a intelectual apoiada nos movimentos e perspectivas que se deram na primeira metade do século XX a partir do Pan-africanismo, e movimento de Négritude a intelectual brasileira insere a categoria “mulher” em seus escritos, nos propõe avanços no agenciamento negro ao pensar as questões de gênero o que torna assim seu pensamento como um a ser lido devidamente com os outros intelectuais inseridos na diáspora que se debruçavam a pensar de modo transnacional. Consideramos que através da figura de Lélia Gonzalez é possível identificarmos um avanço para o pensamento social brasileiro e para a intelectualidade negra que se forja no século XX, uma vez que ela insere e mobiliza as categorias, os marcadores sociais, raça gêneroe classe para leituras das realidades sociais Colômbia, Uruguai, Bolívia, Argentina, Brasil nos apresentando um projeto intelectual transnacional inserido nesta diáspora afrolatinoamericano.
Bibliografía:
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Palabras clave:
Pensamiento de Lélia González; Clase; Género y Raza.